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Método Quadripolar A questão do método é crucial e só é (re)colocável e (re)equacionável em colaboração estreita com o debate sobre a natureza do conhecimento científico da Arquivística. Perante a dualidade complexa, entre a singularidade do arquivo e a universalidade do processo de informação (génese e evolução) inerente à realidade Arquivística, o conhecimento arquivístico, em construção, “reclama” para si um método misto:
O método arquivístico, constitui-se como dispositivo de investigação complexo, por exigência de um conhecimento que está longe de ser unidimensional, e desprovido de variáveis, ou de ser circunscrito apenas aos procedimentos e técnicas (ordenar descrever, instalar e cotar), e que bem antes pelo contrario, abrange toda uma realidade arquivística. O método arquivístico afirma-se, desenvolve-se, consolida-se e aperfeiçoa-se numa dinâmica de um modelo de investigação quadripolar que se executa e se repete continuamente no respectivo campo de conhecimento. Segundo este modelo proposto por P. Bruyne, J Hermen e M. schoutheete, a investigação científica não pode ser restringida a uma visão meramente tecnológica ou instrumental, mas perspectivada de forma a promover o debate entre quantitativo e qualitativo, proporcionando o intercâmbio interdisciplinar. Uma investigação que se cumpre em cada projecto e se reinicia/prolongue, corrige e supera no seguinte, implica sempre a interacção e abertura destes quatro pólos. No pólo epistemológico, instância superior inserida no aparato teórico e institucional – a comunidade cientifica dos arquivistas, as suas escolas, institutos, locais de trabalho, com os seus ideais políticos, ideológicos e culturais – onde se processa a permanente construção do objecto cientifico e a limitação dos problemas da investigação. Assim dá-se a reformulação constante da linguagem envolvida no processo científico que traduz através de simbologias verbais ou não verbais (tais como os modelos matemáticos ou iconográficos), as crenças e os valores partilhados por um grupo de investigadores, de forma objectiva, fiel e valida, que orientam todo o processo de investigação. No pólo teórico o sujeito racional conhece, relaciona-se com o objecto, há a respectiva postulação de leis, formulação de conceitos operatórios, hipóteses e teorias e a verificação ou refutação do «contexto teórico». Neste pólo, ajustado à investigação arquivística, surge, a racionalidade indutiva e há um vasto «material» acumulado empiricamente que, pode ser convertido em «contexto teórico» disponível para os projectos de investigação presentes e futuros. Este conjunto de leis ou princípios são os seguintes:
Estes princípios derivam do «património» adquirido, no qual se inscreve a representação de tipologia do objecto e, inserem-se no paradigma da Arquivística cientifica, tal como os princípios do «respeito pelos fundos» e do «respeito pela ordem original» se inseriam no anterior paradigma dos conceitos técnicos. Este «património» tem de ser incluído necessariamente na formulação dos conceitos e operações, das hipóteses e das teorias explicativas dos casos, abordados por indução, e revistos obrigatoriamente na fase probatória. No pólo técnico o investigador toma contacto, por via instrumental, com a realidade do objecto. No domínio da arquivística descritiva, desenvolvida ao longo deste século acumularam-se procedimentos técnicos canalizados para a representação formal da documentação arquivística, dita histórica (integrada nos arquivos desactivados), e para o armazenamento, transferência, recuperação e difusão de arquivos activos (marcados ainda pela pertinência administrativa, conhecida, até agora, por «valor primário» da documentação). Impõe-se, porém, a revisão destas técnicas dispersas e avulsas, porque neste pólo se verifica a capacidade de prova (verificação/refutação do contexto teórico) do método utilizado. Neste pólo destacam-se ainda duas operações de grande importância:
No pólo morfológico, mais até que no teórico, reflecte-se a eficácia destas operações. Aqui assume-se por inteiro a análise dos dados recolhidos e se parte não apenas para a configuração do objecto científico, mas também para a exposição de todo o processo que permitiu a sua construção, relativamente à função de comunicação. Trata-se da organização e da apresentação dos dados, devidamente criticados no pólo teórico e harmonizado no pólo epistemológico, o que ilustra o pendor interactivo da investigação quadripolar. Daqui resulta uma posição atomista na explicação e uma posição holista na compreensão e explicação. O conhecimento arquivístico pressupõe ambas as posições, assumidas em conjunto, porque, a dinâmica da investigação no campo dos arquivos visa isolar pela explicação, invariáveis ou leis, enquanto que pela compreensão e pelo esforço interpretativo, de cariz qualitativo, procura alcançar um significado total do processo de informação. Todo este processo que conduziu à construção do objecto científico pode reiniciar o ciclo de investigação arquivística, a qual tende para a acumulação em espiral do conhecimento construído. (Os conceitos aqui expostos foram retirados do livro Das Ciências Documentais à Ciência da Informação de Armando Malheiro da Silva e Fernanda Ribeiro. Edi. Afrontamento, Santa Maria da Feira, 2002) |
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